sábado, 8 de fevereiro de 2014

Quando do peito, verte-se a dor
grossa e virulenta
da sua boca, se apossa
de seus olhos, empoça.

Torpor se ausenta

Nos seus abraços outra já se aninha
ela, que se dizia amiga minha
ela, que tem os beijos que eu tanto anseio!

Saudade vive de permeio

Quando do peito, verte-se a dor
pontiaguda e mesquinha
fecha os olhos e sente o amor que se debate e definha

sábado, 1 de fevereiro de 2014



Um sorriso que não foi presenciado por ninguém
Assim como o seu.
Torpes palavras e uma alegria que me deu.
Deixe que a culpa se cale, leviana razão.
Não será alguém que a mente se força a esquecer com dolorosa pressa.
Prometo que não sera por onde a necessidade encontre vazão
e que isso é mais que só promessa.

sábado, 25 de janeiro de 2014

Falso Despertar



   Ela desperta, o ar lhe fugindo dos pulmões apressadamente. Os olhos se apertam para tentar ver na penumbra do quarto. Eles se acostumam com as sombras e os suspiros ficam mais esparsados. O coração se acalma. Levanta-se e anda até o banheiro, o piso frio, o barulho da porta.
   Então ela desperta, franze o cenho, falso despertar. Levanta-se e sente o quaro girando. Deita e tenta acalmar o peito que chuta com raiva a caixa torácica. A pulsação não desacelera, o ar teima em não ser suficiente. Respira e nada. Respira e se afoga em nada. Respira e...
   Então ela desperta. O corpo numa posição estranha. A testa molhada. O coração não cessa. Pensa e logo o corpo pende como trapos.
   Então ela desperta, se aninha em alguém que ressona. Dá um meio sorriso e respira tão profundamente que sente o cheiro da própria descrença. Cerra os os olhos. O quarto se torna mais claro, a luz faz seus olhos piscarem deliberadamente. Ela os abre por um segundo, escapa um nome rouco. Ninguém. 
   Então ela dorme.
     

sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

Quando a lembrança te trai com um poema


Eu sou o silêncio em tua cama
A mão que te abandona ao abismo
Do teu futuro, a lama
Do teu sorriso, cinismo.

Eu sou a dor que espartilha teu peito
Sou a palavra não dita
Sou o juramento desfeito
Mulher, dentre todas, maldita.

Sou um devaneio de morte
Uma sombra entre os que ainda respiram
A tudo deixei de ser forte
Quando aos teus pés, meus joelhos caíram

Eu sou o pedido usurpado
Sou o corpo em choque no leito
Sou quem clama em vão por seu amado
Tu é o pensamento prostremo e a morte, o fim perfeito.

terça-feira, 7 de janeiro de 2014

Ao mestre com carinho - Um conto sobre Tzmices




     O Sangue jorra quente na face cor de giz da menina. Ela sorri. Duas orelhas foram cortadas. Um grito saído do pior pesadelo preenche toda a quietude e imundície da sala mal iluminada. E ela sorri, apesar do protesto do corpo torturado. 

-"Por favor, não se debata, - diz a garota sadicamente feliz - não quero ter que anestesiar você.. shh, shh, shh, não chore. Eu sei que dói, eu sei.. - ela recosta, sob um protesto inútil, a cabeça do homem catatônico no seu ombro - Mas eu preciso que sofra bastante para que o desespero fique impresso no seu rosto antes de arranca-lo dos seus ossos."


     O homem se debate como se tivesse sido eletrocutado por essa frase. Puxando as amarras para livrar o débil corpo. Ele está em um "x" quase na parede no fundo da sala. Os braços esticados até o limite dos tendões por roldanas presas no teto e os pés a centímetros do chão segurados por grossas correntes. Ela observa a inútil tentativa do homem animada. "Isso vai ser promissor, dos outros tive que dispensar grande parte do couro porque não estava duro o suficiente. Preciso estressa-lo mais um pouco para deixar a carne rija."

     Ela se aproxima da mesa metálica, forrada de papel verde, onde estão vários bisturis, serras, furadeiras, impecavelmente limpas, contrastando ferozmente com o lugar, limpa o canivete que usou para decepar-lhe as orelhas, guarda no bolso do avental de açougueiro, vira os olhos na direção do corpo pendurado e dedilha os instrumentos. Os olhos do homem acompanham os dedos da menina com tanto medo que um olhar possa transmitir, gotas de suor banham a tez negra, junto com o sangue e as lágrimas. Ela pega uma foto em cima da mesa e olha para a imagem com interesse.

-"Eu vi como sua mulher te trata agora, depois que você deixou o mais velho se afogar na piscina. Estava tão bêbado na sala que não ouviu os gritos de socorro de seu próprio filho - ela cai na gargalhada, quando o homem se desfaz em lágrimas- Quando eu terminar meu trabalho aqui, vou até sua casa.. - ela faz uma pausa e sorve com prazer o olhar de terror do pobre coitado - ... e pregar os dois na parede..."


-"NÃÃÃO! ... por, por favor não... Quem é você? - choro incontrolável- Vo-vo-cê é só uma garotinha, tem quantos? 9, 10 anos? Que espécie de besta sem coração é... VOCÊÊÊÊ!"


-"Eu sou aquilo que até seu Deus deveria temer, uma filha bastarda de Caim - a expressão suave do rosto da garota se transforma, os olhos se acendem e a voz torna-se perigosamente rouca- Sou quem vai lhe dar uma prévia do inferno. Eu tenho um coração, mas ele não bate mais..."- ela pega a seringa de adrenalina na mesa e se aproxima do corpo em choque do homem.


     Ele convulsiona por alguns minutos até o corpo ficar inerte, debilmente pendurado. Ela olha com um brilho nos olhos para o rosto do cadáver. Sorri, mostrando todos as navalhas esmaltas.


-"Padrinho!Padrinho! Pode descer, acabei."


Um homem muito velho, com os ossos tão saltados que parecia um exoesqueleto, desce com calma as escadas. Há muito sangue no piso.


-"Katherinne! Onde você está minha luz na bruma? Oh, aí está você!- Fala com um tom alegre para a menina que acabou de abraça-lo pelo quadril - Qual é a surpresa?


     Katherinne, leva o homem pela mão até metade da sala, onde retira um pano 
de um enorme volume.

-"Disse que da sua velha poltrona não dava mais para sentir o cheiro do horror dos condenados. Então eu moldei a carne e os ossos de três filhos de Adão de pele escura para imitar o couro da sua velha poltrona, gostou?"


     O velho vampiro esculpe no rosto um largo sorriso e se senta na poltrona, fecha os olhos e suspira longamente.


-"Kath, sente aqui no meu colo, vou te contar umas histórias antediluvianas para você. - a menina se senta e da um beijo na bochecha do caianita - Não sei o que seria da eternidade sem você Kath"

segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

ELETROCARDIÓGRAFO



Não sinto tais linhas
Como não sinto mais a agulha e o mandril.
A mente delira e borbulha.
Lembrança que como fagulha, se esvaiu
Tantos fios, eletrodos.
Eles todos, me fazem me sentir uma marionete senil.
A maca parece que ri, com os espasmos do meu corpo febril.
Tórax exposto
Os aparelhos me reconhecem em convulsão.
cateter vesical; entubação endotraqueal
Esboço um sorriso de pré-derrame no rosto
monitor cardíaco; respirador mecânico; bomba de infusão;
O desfibrilador deitou ao meu lado e perguntou como vai meu coração.
Arritmia, palpitação, taquicardia
hipocondríaca é a razão. 


















quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

Exilar-se do Domingo



        "As vezes me pergunto o por quê conhecemos pessoas, pois poderíamos simplesmente ama-las, seria tão mais fácil.
Incógnitas que induzem ao aluamento, rompendo a sensatez, nos fazem submergir nas vísceras de outrem, até que você conclui que tudo isso é psíquico...
Eu poderia viver a mil, viver por mil, viver com mil, as vezes isso acontece. Mas o problema é que eu sei que sou menos novecentos e noventa e nove.
Desconheço as vantagens da benevolência, sei que teoricamente são admiráveis, chega a ser engraçado falar tão fluentemente de algo que não tenho ciência, porém, há todo um sentido. Sempre procuramos saber mais sobre aquilo que pouco sabemos."

-Pallas

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   Um pensamento solto que uma pessoa querida me deixou fixar aqui. Uma ghost writer que pediu para ser creditada como "Pallas". Bem vinda, pequena insone.

quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

Pássaros




Há pássaros que nascem livres. De plumagem simples, mas com um canto que se compara com os mais suaves bálsamos. É deles o mundo. O céu se faz infinito quando abrem as asas e alçam voo, deixando que o destino seja ao sabor do vento.
“Eu não estou aqui e isto não está acontecendo. Eu não estou aqui e isto não está acontecendo. Eu não estou aqui e isto não está acontecendo...”- repetia a garota até que a mente acreditasse ou que a mulher em sua frente fosse embora.
O quarto era banhado com capricho pelos raios matinais do sol de verão, que sinceramente, fazia o corpo da mulher ser mais edível aos olhos. A pele salpicada de pequenas pintas claras, os cabelos curtos e negros, as formas esculpidas por um artista aficionado pela proporção áurea.  O pequeno cômodo quase não suportava a tensão daquele momento, quando ela se despiu.   

“Posso, ao menos, saber seu nome?”- a frase foi cuspida em uma calma histericamente disfarçada.

“Não Amanda, minha querida, não saberá meu nome e talvez nem se lembre de que eu estive aqui. Você...quer... que... as... vozes ...cessem, não quer?”- A medida que o som foi se esvaindo pela garganta da mulher, a voz parecia mais inumana. Antes que a garota tivesse tempo para ter medo, a mulher lhe tomou pela face e lhe sorveu o ar em um violento beijo.

                               




         Dor de cabeça novamente, o quarto à deriva, tentarei chegar ao banheiro em passos curtos.  Meu corpo não obedece. Que horas são¿ Ainda tem luz lá fora. Mas isso não me ajuda muito, não sei se significa se dormi algumas horas ou acordei na tarde do dia seguinte, ou do seguinte, ou do seguinte. 
         Passos no corredor, uma voz familiar afunilada. Meu pai.

“Pai, pai..”- não escuto minha voz.


“Pai, está me ouvindo...”- desespero começa a formigar minhas mãos

“Ele está se aproximando da porta,  penso  em agonia, GRITE!”

“PAAAAAAAAAI!, AJUDAAAA!” – Nada, o que houve comigo¿ Que monstruosidade aquela mulher fez comigo? O que EU fiz comigo?

“Ele está voltando ao corredor, espera, porque ele voltou com enfermeiros?”

“Não... isso ...dói”-tento falar para eles quando amarram a borracha firme no meu braço.

Espetam uma agulha fria e minhas veias ardem. Choro, mas ninguém pode me ouvir.

               





Um corvo pousa na branca janela hospitalar. Uma menina o admira com os olhos úmidos tornam o verde mais vivo da íris, como se fosse uma terra que almejava ser visitada pela chuva novamente. Lágrimas se acumulam nos olhos, se equilibram, mas não rolam pelo rosto. O dia está nublado lá fora. Ela sorri e passa a mão no curto cabelo loiro.  Olha em volta para as outras meninas do quarto, todas adormecidas. A porta se abre sem som, só com uma leve corrente de ar. Uma enfermeira  quarentona de quadris largos, cabelos negros e curtos, traz uma bandeja com dois copos de plástico até a cama da garota. Um com um punhado de remédios de todas as formas e cores e outro com água.


“Amanda.. acordou bem hoje, querida?”-diz com uma voz suave e treinada para ser assim.

“Hoje eu vou ser uma andorinha novamente¿ Quero ir para o sul... Andorinhas migram para o Sul no verão... talvez até veja meu pai.”  


“Pode sim, é só tomar seu remédio, querida...”

“Mas se eu tomar, não vou poder sair daqui hoje. As vezes quando eu durmo, ela vem me visitar e eu vejo a cidade de cima, o vento é frio perto das nuvens, mas eu gosto. Não... quero tomar isso, hoje... – Amanda coloca as mãos na boca e  balança negativamente a cabeça.
                

“Quem vem te visitar, Amanda, uma amiga? - Indaga a enfermeira assustada com a segurança do hospital
                

“Ela" - aponta a garota ligeiramente para a janela, para voltar a tapar a boca.
                

“Ah... sua amiga 'corvo'.- Fala a mulher aliviada, as vezes se esquece de quais são as suas pacientes.- “Hoje você não vai poder ser uma andorinha, Amanda. Não, não chore... shhhh, shhh, calma. Toma aqui, toma.”- Ela a envolve em um abraço e a garota deixa que as pílulas sejam empurras garganta a baixo.

“Posssssso... saber seu nome?- fala Amanda com a língua dormente.
               

“Não Amanda, minha querida, não saberá meu nome e talvez nem se lembre de que eu estive aqui. Você...quer... que... as... vozes ...cessem, não quer?”.





quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

Recomeço?


     Nunca consegui conviver bem com velhas perdas. Elas geralmente tem aquele tipo de assunto saudosista de "no meu tempo...".Passam horas conversando contigo com os olhos vagos em alguma lembrança. Relembram o tempo que foram o futuro de alguém, que viviam felizes em seus sonhos.
  Velhas perdas viveram demais em um mundo que já não se encaixam. Sentem saudade de coias simples que você já não pode lhes dar. Um abraço de quem vocês amaram, a expectativa de um sorriso, ouvir seu coração fora do ritmo. Então elas te olham fundo nos olhos e você sente-se culpada por coias que fez, deixou de fazer, pensou em fazer. Por isso não consigo lidar tão bem com elas.

   Quando essas perdas estão no começo da existência, você dá mais atenção a elas, seca seus prantos, passa noites acordadas vigiando-as. É uma companhia que te consola quando está se sentindo realmente sozinha. Mas isso não é para sempre. Elas envelhecem e você segue sua vida.
   Tem dias que você acorda e se lembra de alguma, ou quando está preparando um café. Se lembra de como foi dolorosa a fase em que a vida lhes apresentou. Suspira fundo, vai ouvir uma música e pensa realmente se pode supera-la.
   A maioria você deixa que enterrem em uma cova qualquer e sente raiva de você, mas a vida só pode ser vivida assim. Mas tem aquelas Velhas perdas que nunca se vão, porque deixar que desliguem seus aparelhos significa deixar morrer uma parte sua que sentiu, que amou, que viveu. É deixar-se esquecer algo que realmente te marcou.
  No fim, quando seu último suspiro chegar, talvez uma Velha dor te venha fazer companhia e segurar sua mão. E talvez só ela. 

sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

Magoatecária

Madrugada
Mal Grudada
Na pálpebra
Amanhece cheia de água
Vira rima inconstante
Olhos pesados
Passado um instante
Lembrança errante
Guardada na estante
De quem cataloga mágoa