segunda-feira, 17 de abril de 2017

Se você fosse um abismo




Se você fosse um abismo
Chegaria na borda e não temeria
A vertigem ou meu cinismo

Se você fosse um abismo
Aproveitaria a vida
E todo o egoísmo

De renegar o tempo com outros
E passar contigo os poucos
Segundos da descida.


domingo, 30 de outubro de 2016

Eu sei que continuamos morrendo





          Eu sei que nossos maus hábitos vão nos tornar velhos doentes, mas doentes já somos e envelheceremos mais um pouco antes de terminar esse parágrafo.  
    Enquanto meus dedos esquálidos, de unhas roídas e incolores, tamborilam desconfortáveis pelo teclado, minha mente insone tenta conduzir esse texto da mesma forma que um maestro conduziria. Durante um ataque epilético. Com uma perfeição imprevisível.
     Com uma imperfeição previsível: eu sei que continuamos morrendo. Ou que continuamos tomando remédios demais mesmo já sendo doentes. Talvez tomamos remédios de menos e por isso envelheceremos mais um pouco antes de terminar esse parágrafo.
     Compre um complexo vitamínico e pare de fumar. Talvez assim não morramos antes de tornarmos velhos ainda mais doentes, mesmo que sua condição genética te de câncer antes dos 60. Ouça sua mãe, seu médico, seu horóscopo. Eles dizem que librianos tem problemas de infertilidade por causa do sereno. Ouçam eles e ignorem que continuamos morrendo.
     Eu sei que nossos hábitos vão nos tornar velhos doentes, mas eu gosto do som nilístico de desperdício que do meu coração arrítmico faz. Toda vez que você me toca. Mas eu gosto de imaginar suas células oxidando toda vez que seus pulmões se esforçam para sublimar em meu ouvido. 

    Doentes já somos e envelheceremos mais um pouco lendo as próximas pausas, entre vírgulas, eu sei, que, continuamos morrendo, na próxima vez que suspirarmos, um ao outro, resfolegando, eu te amo.           

domingo, 17 de julho de 2016

Poema rotineiro




Dos excessos conhecidos,
abuso da falta de sono.
E todos os sonhos perdidos?
Insones no abandono.

Ansiedade
Da alma, um abcesso.
Corrói-me a réstia da mocidade
O gosto é sempre indigesto

De todas as fugas permitidas,
encontro sempre sexo.
Ora do prazer fugitiva,
ora do prazer objeto.

Torpores imundanos.
Opiático amante.
Faz uma lembrança durar cem anos
e cem anos apagarem-se n'um instante. 

terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

Delirium Tremem - Último dia no Paraíso



                    Uma voz afunilada e quase impessoal, ecoa na mente de uma mulher  deitada no piso de um banheiro azulejado. "Alguém já te disse que os sorrisos são suicidas? - A mulher, quebrando o transe imoto, balança fracamente a cabeça em negativa - Então saiba, quanto mais largo um sorriso for, mais fundo será o abismo de apatia, sofrimento ou mágoa que ele se jogará. A maioria morre do mesmo modo que surge: num violento silêncio. Mas tem aqueles que despencam de uma felicidade tão grande, do própio paraíso, que nem conseguimos prever o momento que ele atingirá o solo. Ao invés disso, sentimos os cantos dos lábios tremerem, depois o queixo, então os olhos se tornam inúteis barragens contra as grossas lágrimas. Os sorrisos são suicidas, Teodora."
            O corpo quase inerte se encolhe no canto do box azulejado. Suas pernas muito magras tremem quando as gotas quentes do chuveiro lhe tocam a carne torpe e alva. Ela passa as mãos arroxeadas pelos longos cabelos emaranhados, tirando-os do rosto. Cruza os braços nas costelas aparentes e aperta os seios contra a pele descolorida do tórax. O braço esquerdo cai com um leve estampido sobre a coxa, antes de escorregar debilmente ao piso. Um filete de sangue corre intermitentemente da pustema localizada na junta do braço com o antebraço. A mulher observa o líquido carmim se diluindo na derme molhada. Os olhos se prendem nas dezenas de córregos, pelos quais sua vida escorre lentamente. O sangue serpenteia no azulejo branco até o delta no ralo. Ela respira com o mesmo chiado no peito que a acompanha a dois meses. Escora o ombro direito na parede e consegue se levantar com tremendo esforço. O sangue vaza mais forte nessa posição, acumulando-se nas pontas dos dedos, uma torta comparação do orvalho em uma árvore seca.
            Fecha a torneira com uma leve tontura, que a segue pelo banheiro. Pega uma regata no chão, já manchada de pingos escuros de sangue seco, amarra em volta da ferida. Seca-se com desleixo, veste um camisão escolhido a esmo do monte de roupa suja, atrás da porta. Mete a mão em todos os bolsos de todas as calças do mesmo monte e encontra um pacotinho de plástico que, para seu descontentamento, estava totalmente vazio. Procura algum cigarro embebido na substância ou em algum dos copos em cima da pia, ainda com o forte cheiro do éter. Nada. Maços amassados na lixeira e copos vazios.  A poeira do som das asas dos anjos, o argento pó sidéreo, havia acabado.A pele vai tomando uma coloração leprosa. O coração bate com raiva, como se xingasse por desperdiçar os 26 anos de trabalho árduo do órgão.Suor e tremores. Boca seca e enjoos. Esperava alguém e ela estava atrasada. Podia sentir a carne enrijecimento, não demoraria para ter outra convulsão. O ar se torna escasso e ela se afoga em si mesma. Apoia-se na parede, não aguenta seu peso e o peso da própia vida se esvaindo.Tenta tragar o oxigênio, mas só respira dor pura, inflando e fazendo arder os pulmões. O corpo cai exausto e fica na posição disforme de uma boneca abandonada. Braços tortos e pernas cruzadas em posições estranhas.
            Os olhos embaçam mais um pouco e giram em todas as direções antes de um som quase inaudível, como se pudesse ouvir o ar sendo deslocado, fazem Teodora estacar. Uma voz dolorosamente familiar a apunha-la. Ouve num pânico comatoso sobre sorrisos que morreram sem cortejo, retém uma lembrança na memória, da queda do seu sorriso mais sincero, expulso do Éden de um abraço.

            Tudo ocorre tão rápido quanto os últimos segundos de um sonho, que estendem-se até os limites do próprio tempo para quem o sonha. Uma manhã de verão. Uma despedida. Gotas de suor brotam da testa retorcida do corpo vacilante de Teodora. Só deuses ausentes e a propia mulher poderiam ver tal cena. Teodora nova, correndo para um abraço mal recebido e um beijo negado de um menino com o sorriso mais ferido que uma alguém esboçou. Segue-se uma discussão feroz, qual um encontro de alcateias na disputa de uma carcaça. Um pedido refutado com tanto pesar, que o coração dos dois se atrofiam para sempre. Então o suicídio do sorriso e a mulher desmorona em soluços. Volta para o banheiro semi-consciente, encara o mesmo homem, a olhando com um meio sorriso terno e trêmulo.

- Achei que não viria.. - diz Teodora com a voz embargada enquanto o sujeito se aproxima. Rouba-lhe um beijo urgente. As línguas fugazes se entrelaçam e deixam ser entrelaçadas. A mulher afasta o rosto poucos centímetros e diz quase suplicante - Faça hoje parecer real.


(Texto feito em Agosto de 2014)

Mácula


Meu jardineiro,
Do roseiral tão vasto
Escolheste a rosa mais torpe
A flor de um branco casto
Esconde a bela insídia
Que toda elas tem
Espinhos maculam o jardineiro

E as pétalas da rosa também




segunda-feira, 18 de janeiro de 2016



Queria criar
Sem destruir
Mas nas veias do poeta corre o nanquim

Queria escrever
Sem me autoconsumir
Mas, como? Sem drenar uma parte de mim?

quarta-feira, 11 de novembro de 2015

Quando não escrevo



Nas coisas que não concebo,
tem sempre uma essência sua
Minha inspiração, nascida no Érebo,
tem morte prematura

Minha escrita, agora percebo,
Não vive pelo traço da melancolia crua.
A vontade que guia pena,
são minhas palavras querendo ser suas.

O poeta amaldiçoado,
toda sua obra condena.
Textos inacabados 

e minhas palavras te escrevendo poemas.

terça-feira, 15 de setembro de 2015

Cefaléia Crônica

            Eram nove horas quando o alarme tocou. A cama estava confortável e quente como um abraço nunca esquecido O lençol escorregava preguiçosamente enquanto ela fazia uma tentativa frustrada de se sentar. Ainda era cedo para sair da cama.
      As pupilas opacas correram para janela aberta. O tecido leve da cortina levitava como um vestido em movimento.
 A brisa quente estava convidativa para um passeio. Ela se imaginou fora dali, no parque ao lado da sua janela. Terminando mais um romance água-com-açúcar e imaginando se os casais que caminhavam juntos eram tão felizes e clichês também. Ela forçou o tronco enquanto apoiava os braços paralelamente ao corpo. Mas ainda era cedo para sair da cama.
            A enxaqueca martelava na cabeça de novo, pega desprevenida pelo alarme. E o calor só piorava a dor. Lembrava da época que vivia normalmente, sem ter os vasos capilares pulsando na têmpora. Quando conseguia sair à noite para se divertir sem ter a cabeça explodida pelos sons da cidade. Buzinas, som alto, gargalhadas. Como até o barulho do teclado parecia pancadas no cérebro. Foi se isolando a medida que a dor de cabeça ia se tornando mais freqüente. Depois de cinco meses e vários especialistas, sem melhora alguma, ela não saía mais de casa e mandou isolar acusticamente todo o apartamento. O único convívio com o mundo quando os analgésicos funcionavam, era aquela janela aberta para o pequeno parque silencioso.Seu milagre para a loucura do isolamento. Os amigos não a visitavam mais, porque tinham que manter silêncio absoluto. Não se interessava por mais ninguém quando imaginava a voz da pessoa ecoando e rasgando sua cabeça. Ela dedicava a vida a dor constante, como uma amante encarcerada. 
Cada detalhe monótono do quarto do pequeno apartamento parecia mais vívido agora, a tinta alva; os dois quadros com tema floral; o pequeno guarda-roupa de madeira escura, combinado com a cama e o criado mudo. Suas mãos tatearam debilmente o móvel procurando um copo de água, achou o frasco de calmantes quase vazio. Ela havia tomado alguns para a maldita enxaqueca que latejava todos os dias, como sinos infernais. Ela calculou, pela dosagem, que iria levantar depois das duas da tarde. Ainda era cedo para sair da cama.

            Eram nove horas quando o alarme de incêndio tocou.

terça-feira, 31 de março de 2015

Teto de Algodão



     A gata preta ronronava no meio do casal que tinham acabado de dar bom-dia um ao outro, mesmo passando das três da tarde. Sem os óculos, os olhos de Carmen pareciam ser da cor mais vívida para Eduardo, apesar do seu daltonismo. E para Carmen os olhos de Eduardo eram nitidamente o borralho mais azul que já vira. Igual um céu impressionista sem nuvem alguma.
     Esse pensamento a fez rir baixinho, escondendo o sorriso bobo no abraço de Eduardo. Ele a acompanhou, sem entender o motivo mas achando aquela risada uníssona a parte mais gostosa de acordar com ela.

    - Me conta porque riu - pede Eduardo tentando tirar o rosto de Carmen do seu peito. Ela descobre metade do corpo e senta-se na cama com a gata no colo.

    - Eu te conto em uma outra vida quando ambos formos gatos. - Responde a menina imitando um sotaque espanhol.


       Déjà-vu. Cada frame do pensamento de Carmen se lembra de algo curioso. Que a nova namorada de seu ex namorado parecia insistir em fazer as mesmas coisas que ela fez. Ir aos mesmos lugares, assistir aos mesmos filmes, ver os mesmos shows. Talvez os mesmos erros também. Era como se Carmen visse uma parte de uma antiga vida repetida, refilmada. E ela não foi boa em seu próprio papel.
       Eduardo atende os miados da gata e abre a porta do quarto. Carmen nem tinha percebido que ela já tinha saltado de seu colo. Ele se deita novamente e levanta o cobertor para que Carmen pudesse deitar ao seu lado. Para que ela pudesse olhar para o céu sem nuvens novamente.

"Talvez eu já esteja em outra vida" - pensa a menina quando Eduardo beija delicadamente seu pescoço. "Talvez eu já esteja"


       Carmem puxa o cobertor, tapando completamente os dois. O céu de Carmen tinha o teto encoberto pelas pálpebras de Eduardo, o dele tinha teto de algodão. E a única coisa que o separava entre a cama e o céu era o corpo de Carmen.





 

quarta-feira, 18 de março de 2015

Morta-pelos-pés



Jaz no chão, o amor que não floresceu.
Jaz no chão, o botão decepado do galho torto.
Jaz no chão, as lágrimas mornas e o soluço rouco.
Aquiles morto, Herácles louco. 
Os grandes permanecem para sempre, mas vivem pouco.
Jaz no chão, meu corpo. 



    Escreveu a poetisa no quarto do casal. A Musa dela dormia nua e ressonava. Tão linda. A poeta deslizou os dedos no cabelo encaracolado de sua amada.

"Morena, sempre soube que seria a flecha no meu calcanhar naquele domingo de outubro, naquele beijo de novembro, nesse 'eu te amo' de dezembro"- Sibilou a poeta, tão baixo que a Musa não ouviu. Nem o homem que dormia ao lado dela ouviu.

    O que se ouviu foi um tiro.

   
   

segunda-feira, 16 de março de 2015

Sentir é muito lento




      "Sinto muito. Sentir é muito lento." - dizia a pichação no muro da esquina que já dobrei. Os olhos baços, as mãos trêmulas. Como queria um cigarro. Andei pelas ruas como se elas e a chuva não existissem. 

    Cada vez que eu levantava minha cabeça, via os sorrisos dos corações atrofiados e eu arcava a boca para que o meu coração atrofiado pudesse sentir-se parte daquela farsa toda. Quase todos os corações são natimortos, em algum ponto da pequena pausa entre os batimentos, eles morrem, mas ainda sim, continuam pulsando sem sentido. Ninguém te para na rua e pede para ver a certidão de óbito dele. Isso você deixa para aquele momento em que homens não choram, mas choram. 

    Finalmente parei no posto e comprei o maço. Opiático e vermelho. Recomeço a andar. Olhos baços, mãos menos trêmulas. Agora tenho meu cigarro. A minha direita, toda uma imensidão de lápides e adeus do cemitério municipal. As minhas costas, todas nossas poucas lembranças e adeus. Acendo um cigarro e em um pequeno êxtase,te trago comigo. O cigarro queima rápido no curto trajeto até a rodoviária. Compro minha passagem e o gosto da nicotina se faz ainda presente, quando o ônibus dá partida. Em algum canto da cidade um coração agoniza e atrofia.
     "Sinto muito. sentir é muito lento" - dizia a pichação no muro da esquina que já dobrei. E nunca mais dobraria.  

terça-feira, 3 de março de 2015

Ausência

Tua Falta é sentida de corpo presente


Desgraçada é a vida
Quando a solidão já é indiferente 


Finge-se contente
Quando a alma está mais ferida
O silêncio é o único confidente


A melancolia é dividida 
E estar só não é tão ruim
Quando tua ausência, por ela for preenchida
Estarei só enfim.

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

Sonhos do Abismo: Demos Oneiroi



      Os últimos minutos de luz solar estendem-se caprichosos no parque. As cores do inverno projetam-se nas poucas folhas desbotadas das árvores e no rosto nacarado daqueles que aproveitam o ameno fim de tarde.  Vez ou outra uma corrente fria bagunça franjas desavisadas e faz mãos procurarem bolsos. Poucas nuvens alaranjadas se espalham no céu azul-claro, característico da estação.  Em passos lentos, um homem fotografa atentamente o lugar. Como um espectro, ele caminha pelo parque roubando pequenos momentos. Um sorriso dado em resposta a um gracejo. Uma testa franzida enquanto se lê um livro. O leve bailar dos galhos com o vento. Segundos do passado que são eternizados na simples mecânica de se apertar um botão.
Os olhos atentos do fotografo são desviados para um banco próximo. Uma menina pálida de longos cabelos negros imersa em sua leitura. Ele aponta a câmera para tal cena e tira uma sequência de fotos. Seu rosto se contorce ao olhar o resultado, porque em todas a imagens o banco aparecia vazio. Ele se prepara para tirar outra foto quando percebe que ela o observava fixamente. O homem vê esse olhar como um ótimo momento para se apresentar.

- Posso me sentar? – Diz o fotógrafo com um sorriso largo ao se aproximar


        A mulher fecha o exemplar da "Divina Comédia" sem tirar os olhos perscrutadores do rapaz. Fixamente, os dois pares de olhos dançam. E ela sabia conduzir com maestria essa valsa do abismo. Os olhos negros da moça faíscam e ele percebe que sabe o nome dela, antes de perguntar, antes de ter o ímpeto de perguntar. Melinoe.
        
"Dante"- Sussurra a voz que não está mais lá. 
           
        Ele pisca os olhos freneticamente até entender a realidade. E ela não fazia sentido algum. Aquele livro deixado no banco vazio. Dante franze o cenho, confuso, quando uma voz conhecida se torna a voz de sua própria consciência e lhe ordena. O mundo não existira mais para ele, tudo o que podia sentir era a voz dela vibrando num eco perpétuo dentro de sua mente. Augusta presença, como uma deusa entre os mortais. Nem Byron poderia descrever aquela figura de pele pálida e olhos de noite. 
         Todo o caminho para casa acaba sendo uma distorção da vontade para Dante. Ele se senta rígido no banco do ônibus e nem percebe acenos de conhecidos quando desce no ponto perto de casa. Algo além da intuição, o avisa que das sombras vem a morte, mas seus sentidos estão surdos e entorpecidos. A vida toda nunca pareceu ter existido. A mente era um pêndulo repetindo o som da voz de Melinoe. Sobe as escadas num passo mecânico, quase uma marcha para seu próprio enforcamento. As luzes do corredor apagadas, fazem seus passos pesados ecoarem mais fúnebres e os vizinhos sentirem um arrepio sem saber o porquê. Ele destranca a porta num gesto mecânico e cambaleia até o sofá onde desaba. 
       Da escuridão vem um som afunilado e repetitivo. Um par de olhos amarelo fluorescente, se aproxima e escancara a pequena boca. E no caminhar maldito das horas mortas, mais gatos surgem. Quatro gatos brancos. Com o pelo em riste e sibilando em comuna com velhos pesadelos e criaturas mais antigas que o próprio medo. Mais um miado longo e conjunto. As sombras se engrandecem e apenas os glóbulos reluzem. Outro miado e as sombras se esparsam. Cheiro metálico e pastoso. O pelo antes branco dos animais, estão agora, tingidos de um sangue escuro e seco. O som de suas vozes é um crescendo de pura dor.
      Quatro da manhã e ele desperta em um espasmódico susto no escuro. Sua gata cinza-fosco, brinca com o colar étnico em seu pescoço e mia baixinho. O corpo de Dante estava em uma posição estranha no sofá desigualmente confortável para seu tamanho. Nenhuma recordação de que havia adormecido ou que havia chego em casa, a última lembrança na mente anuviada e confusa é ter estado no parque. Na penumbra fracamente iluminada pela luz da rua que vem da sacada da sala, ele pode distinguir a forma compacta em cima da mesa de vidro que ocupa boa parte do cômodo. Ligeiramente, ele anda em passos ansiosos até a mesa e liga a câmera em suas mãos tremulas. No display da máquina, aparece a mesma foto que se lembrava de ter tirado. O banco vazio.
      Enquanto ele franzia a testa e tinha certeza que havia uma mulher neste banco, ouve uivos. Não um, não dois. Mas de todos os cães da rua. E eles parecem ir se aproximando do apartamento.
      A cadela de porte pequeno da residencia uiva num som fino e anormal, fazendo Dante sobressaltar. No mesmo momento, ouve-se batidas repetitivas na porta da frente, fazendo seu estômago dar nós. Então, sem sobreaviso, elas cessão e o único barulho no apartamento deserto é o coração de Dante, dando punhaladas em seu peito. Suas pernas tremem, como se não aguentassem o peso do próprio corpo e do pavor.
      O som seguinte lhe traz uma calma apática.

-Dante! Abra a porta! É Melinoe quem ordena! - Ele caminha em solavancos bobos e deixa-a entrar, sem nem mesmo a questionar ou a si questionar de como a mulher conseguiu entrar pela porta do prédio e não fazer barulho algum ao subir o curto lance de escadas. 



      Em um movimento tão rápido quanto um raio é perceptível aos olhos humanos, ela enlaça seus lábios rubros nos trêmulos dele. A língua e o desejo avançam sem cabresto, fazendo o casal girar constantemente o rosto. Ele a envolve em um abraço pela cintura, trazendo seu corpo estranhamente frio mais perto. Com um leve movimento a comprime contra o apoio do sofá, enquanto Melinoe  trança os largos quadris de Dante com suas coxas, fazendo assim, desnuada-las do longo vestido preto.
      As mãos de Dante logo percorrem a carne alva e rija como o granito. Melinoe solta um arfar do fundo da garganta, quase um urro, quando a ponta dos dedos se aproximam do meio das coxas. Ela agarra o pescoço de Dante com uma das mãos, enquanto a outra apoia-se no móvel. Passa a língua libidinosa na jugular do rapaz com uma calma calculada, desacelerando a cena. A artéria pulsa e a Besta protesta, fazendo os olhos de Melinoe arder de sede.


-Hmmmm... seu cheiro... - fala enquanto o olha fixa e profundamente, com o sorriso em carranca. Dante tem aquela sensação estranha novamente, como a presa tem, milissegundos antes de ser abatida.
       

       A gata cinzenta,  senta-se imóvel no umbral do pequeno corredor. Os olhos amarelos do animal observam cada passo da luxuriosa cena, seus ouvidos captam cada modulação de insânia que escapa daquelas bocas. O bicho se aproxima do sofá e a cada passo, transformações sutis moldam o seu esqueleto. Primeiro o tom do pelo muda para um preto lustroso, o globo ocular vai se tornando mais humano. Numa erupção de sombras o corpo felino agiganta, contorcendo-se em ângulos obtusos. A criatura se torna bípede em estalos secos e ecos. As sombras do cômodo dançam em volta do corpo esquálido e níveo, formando um manto vivo e cobrindo a criatura que nunca foi humana, mesmo tendo existido como uma.

                Melinoe sorri no meio de um dos infinitos beijos, fazendo Dante reduzir o movimento pélvico e olhar nos olhos obsidianos da mulher. Ele pergunta algo frequente, esperando uma resposta comum, de uma trepada casual:


- Tá bom, né? - A frase curta, falada num tom morno e rouco, desperta uma risada histérica em Melinoe. Dante franze a testa de ébano polida pelo suor.

- Ri por quê?- Um arrepio percorre o corpo de Dante, quando a mulher traz a boca ao ouvido dele.

- Porque vai morrer. 



      Em um átimo, o manto da criatura que os observava se refaz em mil tentáculos de sombra. Eles deslizam pelo chão, quase líquidos, até encontrar a carne de Dante. Antes que ele pudesse inflar os pulões em um grito de horror, os tentáculos negros entram pelas suas narinas, frios úmidos, como o o toque da morte.
      Dante abre os olhos no vazio do abismo. E sente o nada. Vozes afuniladas e distantes, entoam um ritual em uma língua velha e estranha. O tempo era o mesmo de quando se sonha antes de despertar, infinitamente impreciso. O abismo agora sussurrava seu nome. Quando se tem um pesadelo mergulhado no éter e no érebo, o tempo se torna imprecisamente infinito. 
     
       
   

segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

Visita

Bem vinda é você
Na casa da solidão.
Que entra sem bater
Ela, com os sentimentos de segunda mão
Vem te receber.

Bem vindas somos
Na casa da solidão.
Há sempre um quarto vago,
afago, compreensão

Coração
Rejeita companhia
Qualquer outra é vazia
Para ela. Para nós.
Bem vinda seja a solidão
Quando não estamos sós.

quinta-feira, 2 de outubro de 2014

Campo Santo


.
    Um relvado extenso se ergue na luz do dia que se finda. Algumas cabeças de boi ruminam e espanam os insetos com o rabo. O leve sereno já se acumula no capim de um verde vivo, mas parece não incomodar os animais. Nem o pequeno grupo que caminha agachado na parte onde o campo se engrossa, carregando a paisagem de um jeito selvagem. 

- Shhhiu, faz menos barulho João da Cruz, queres que o bando do Moringue nos pegue. Aquieta esse passo, piá!

- É complicado, Netinho. Tu sabe que se a gente se embrenha nesse mato estamos salvos desses caramurus!


    Os outros oito homens, de pele escura e empunhando lanças, tentam silenciar até o pensamento. A campanha foi a mesma cachina da anterior, terminando de destroçar o grupo. Mesmo feridos e com a fome revirando nas tripas, eles sabiam que o que os movia a continuar era algo além da vontade de viver. Era o desejo de liberdade.
    O ar frio da mata fechada sopra esperançoso no rosto de joão da Cruz. Um suspiro de alívio é inspirado por todos. E permanece estocado no peito.


- Te pegamos, seus negrinhos de bosta! - É o som que a maioria ouve por último, vindo da mata.


    Soldados fardando um azul escuro e funesto, com suas botas quase novas e botões dourados, bradam um urro de morte e de vida. Corações dentro de peitos negros ou transpassados por faixas brancas na transversal, batem e param de bater do mesmo jeito. Perante o delírio do confronto, os dois lados são homens e feras.Tiros. Espadas puxadas de suas bainhas. Lanças que sentem o gosto férreo do sangue. Silêncio.
    O breu da noite já predominava de um jeito sepulcral no descampado. Os animais são tocados por peões e ambos parecem não se importar com o sereno gélido. Menos indiferente era o grupo que caminhava agachado em um canto do pasto. A serração não condensava naquele ponto, como se ali, matéria não existisse. Os lanceiros negros mantinham o mesmo passo, sem nem um tremor sequer. Os mortos não sentem frio.

.

quarta-feira, 1 de outubro de 2014

Poemeto de Retratação

Eu queria me desculpar, em nome da minha alegria
Ela é indomável e egoísta
Hora quer ser melancolia
Hora quer ser saudosista
Eu queria me desculpar, em nome da minha alegria
pelo seu jeito displicente 
em relação ao amigos
aos meus livros 
ao meu sono.
Eu queria me desculpar, em nome da minha alegria
não sou regente
desse sentimento que atente um só dono
A musa sorri, pelo medo que temia
Não por não sentir, mas por sair da letargia.

domingo, 3 de agosto de 2014

Pretensão




Risada que escondi
Arfar que não respirei

 Dor amarga que bebi
Escaparam de refluxo pelo quarto
E o corpo, já farto do não-sentir
Sente
Duplamente
Como é quente o carmesim
Vou repetir isso em mim
Vou repetir isso em mim


sexta-feira, 1 de agosto de 2014

Canto de um Pulsar



     Algumas madrugadas atrás, descortinei a janela sobre a minha cama. Meus olhos, quase cegos, não reconheceram muita coisa além do borralho iluminado que era a Lua e a copa das árvores,que pouco nítidas, projetavam um espectro agourento no céu noturno. Não me importei em colocar os óculos porque minha vontade, inspirada em poetas parnasianos, era ouvir estrelas e não vê-las.Os olhos castanhos-turvos fixaram-se em um ponto aleatório do céu. Cotovelo se apoiava no umbral da janela, cabeça na palma da mão e a mente se apoiava em lugar nenhum, vagando tão longe que faria inveja na Voyager. O universo era tão tangencialmente finito quanto a minha mente naquele momento. 
    Meus pensamentos orbitavam Castor e Polux quando um ruído vítreo trouxe-me de volta. Um pássaro escuro e lustroso feito piche e olhos de lusco-fusco, investia em batidas regulares contra a minha janela.
     Caí de costas no chão e a queda só não foi mais dolorosa que o medo, trespassando feito lança o estômago. A ave continuava a forçar entrada e a cada nova batida, nova também era a explicação que eu dava a mim mesma.

"Mais um pesadelo vívido, aguente que logo a hiperventilação e tua arritmia vão te despertar." -Dizia a voz da minha consciência em um tom pouco convincente, enquanto eu fechava e abria os olhos com força.

"Paralisia do sono. Vai ser uma péssima e intensa lembrança." - Gaguejava meu subconsciente o primeiro distúrbio do sono, quando o vidro da janela trincou. 

"Sombras do Abismo! Criatura das Horas Mortas!" - Berra qualquer parte primitiva da minha mente enquanto a parte racional treme em silêncio, quando a besta alada salta do buraco no vidro para o quarto escuro. 


     Na penumbra os olhos da ave cintilavam na minha direção,dois globos fosforescentes me examinavam enquanto eu arfava e minhas pernas espasmavam descontroladamente. Em pequenos saltos, ela atravessou a cama e parou com as patas secas em cima das minhas coxas trêmulas. O bico em formato de foice quase encostando no meu queixo. Tentava controlar a expiração das narinas dilatadas pelo pavor quando o pássaro abriu suas longas asas em um arco.
  Então a ave cantou. Primeiro o som foi de um chiado baixo, como um rádio captando só estática. Tive mais medo. O ruído foi ficando constante e metálico. O pássaro cantava a sinfonia de estrelas pós-colapso.
  Fiquei alguns segundos com a boca semi-aberta depois que o seu canto cessou. Inebriada. O animal saltitou ligueiro até a cama e me encarou. Feixes pálidos e frios de luz, forçavam a penumbra e o meu medo do desconhecido a deixar o cômodo. As cores do amanhecer deram uma outra ótica a ave que balançava a cabeça rapidamente entre os meus lençóis.  
   Sua plumagem era de um azul profundo, tão profundo como os mares do norte. A cauda se descoloria numa cascata de tons marinhos, até chegar a um tom níveo de branco e de beleza das Camélias. Os olhos eram pequenos brilhantes que piscavam translúcidos. A ave era tão magnífica, que Narciso deixaria seu reflexo para poder morrer olhando para ela. Era um Pássaro-Contemplador-de-Estrelas.
   Minha vontade foi de cortar a ponta das assas do pássaro, mas seria um pecado transformar tal criatura num mero bibelô. Eu recostei no travesseiro, observando o voo baixo e despreocupado que o Pássaro-Contemplador-de-Estrelas dava no quarto. Talvez ele percebeu meu olhar triste e atencioso, porque veio se aninhar no meu peito e ali ficou. Piou baixinho quando eu acariciei as penas, pedindo para que não fosse embora tão cedo. E ali ficou.
   Trovejou três dias consecutivos e por três dias consecutivos o Pássaro-Contemplador-de-Estrelas deixou que eu ouvisse com todo carinho seu Canto-de-Pulsar. Na madrugada do terceiro dia, o céu se encheu de estrelas. A ave olhava pelo buraco que tinha feito no vidro e uma brisa mansa tremeu suas penas. Então me olhou e seu canto era um lamento.

"Vai! Abre tuas asas sob o Cosmos! - Falei em um tom moroso enquanto minha mão apontava involuntariamente para a janela - A chuva e minha tristeza de monção não são mais suas gaiolas.

   Ele hesitou um segundo e meio, que pareceram uma eternidade e meia. Cantou uma última vez naquela frequência sidérea. Saiu. Observei o voo cadente se distanciando até se fundir com o infinito celeste.
      Sempre aguço meus ouvidos quando uma ave canta. Cotovia, Bem-te-Vi, Coruja. Juro que até o Rouxinol eu já ouvi. Mas o eco de um canto de um pulsar, o som do Pássaro-Contemplador-de-Estrelas, só posso ouvir quando a memória lembra do brilho de Nebulosas distantes.   






sábado, 5 de julho de 2014

domingo, 29 de junho de 2014

Nódoa



Eu sou tua chaga aberta
Latejando em tua derme
Sou a praga abjeta

Do âmago da dor, o verme.

Lhe devoro a carcaça
Lentamente
Da sanidade te afasta
Lentamente.

O meu beijo, é o beijo da lepra.
O meu amor, é o arauto da desgraça.
Mas é somente a dor que estará presente

Enquanto eu, tua doença, te consome e se alastra.