quarta-feira, 23 de outubro de 2013

Dor de estômago pós boca da noite



Exaurindo-se nas dores do corpo e nas além dele.
Falta de sono é dormência.
Acreditar que não, é peso-morto.
peso-morto da não-existência.

sábado, 19 de outubro de 2013

Bilhete de jogo de cama.

Quando estamos só eu e você, eu sinto menos minha. Menos minha tristeza. Menos minha decepção. Menos minha incapacidade. Eu me sinto "impertencente" de qualquer coisa que não esteja na distância dos seus olhos nesses momentos. 

Quando estamos só você e eu, dormir em paz é eternidade. 

Tercetos para um Insone

E é assim, sem boa noite que eu me despeço. Teu silêncio é um acoite espontâneo. Teu amor é objeto, falta é sucedâneo. Sem boa noite, a noite não será. Meu silêncio é um acoite, que navalha a mente insone. Os sonhos que ninguém sonhará, a sombra da fresta que colecione.

O meu, eu deixei pra ti embrulhado em desculpa.
Todo silêncio é um açoite, que eu sinto sem ti.
Sentimento que usurpa, a noite que não dormi.

quarta-feira, 16 de outubro de 2013

Constelação de memórias



Costas da mão estão paraplégicas.
E as cordas vocais desfiaram.
Tetos celestes desabaram

Fios de cabelo entre os dedos,tecem lembrança.
Órion nos seus olhos
E se a poeira de estrelas eu fosse alérgica?

Anos luz de distância
Brilho de galáxias que uma noite chegaram
Pedidos ao céu da boca

São feitos e perdidos.
Constelação de memórias, eis a nossa história.




terça-feira, 10 de setembro de 2013


Todos os erros se acumulam em uma cova rasa, 
escavada com a própria mão. 
Crime perfeito, mas culpa te escarra.
Todos somos cúmplices da solidão. 

Visita é sempre a falta

Uma vida é nada. Passa só.
Ossos velhos doem sem tempo.
Uma (in)decisão, em corda vira nó.

O nada vira pó. 




segunda-feira, 9 de setembro de 2013

A Mulher de Cristal

    Da forma do artista, saiu a massa plástica viscosa. Disforme pelo calor do forno. Ele aprecia o trabalho, enquanto o material se enrijece.
    O vidraceiro demorou uma vida toda para aperfeiçoar o molde, a quantidade perfeita de sílica,sódio, cálcio e decepção depois que a obras finais saíram com defeitos. Ele tinha os traços do rosto fundos, por se sentir  incompleto na vida e completamente infeliz. Nenhuma mulher viva o encantava, pele quente jamais fez  amar alguém, mesmo buscando isso desesperadamente. Mas no fim eram só palavras e expectativas para elas e dois corpos falhos para ele . Ele não tinha laços com os vizinhos e amigos, seu coração era mais frio e imóvel que as taças expostas na vitrine da pequena loja.
    A mulher saiu do molde, a pele fria era de vidro tão cristalino, que parecia ser de gelo puríssimo. Óxido de ferro na mistura inicial, deixaram os cabelos dela quase bronze e o cobalto, fizeram seus olhos tristes e azuis. Seu corpo sem vida , faria com qualquer mulher quisesse parar o coração e ter aquela perfeição por uns segundos . E homens passariam todos os anos restantes da vida deles, abandonado mulher e filhos, só pelo prazer da contemplação infinita. Mas o artista, ele só queria que aquela escultura de cristal pudesse retribuir o que ele sentia.  Ele se aproximou de sua obra, envolveu-a com seus braços e calor. Por um momento ele achou que era a pele dele que era fria , que era o coração dele que não batia. Que tudo vinha da mulher de cristal. Então, em sua delirante paixão, ele roubou um beijo dos lábios imóveis enquanto que a esperança lhe roubava uns minutos.
    Quando os lábios se separaram, ele olhou com os olhos turvos pelas primeiras lágrimas de sua vida. Pelo breve momento que os olhos não transbordaram e o líquido se acumulou, ele viu o corpo da mulher iluminado por uma miríade de cores, como se ela fosse um vitral gregoriano tocado pelo sol.  Mas assim que as lágrimas se tornaram torrenciais, formando gotas grossas no fim rosto,  tudo desapareceu. E uma dor excruciante fez o seu coração se contorcer dentro do peito, rasgando-lhe as entranhas.  A vontade dele era enfiar com toda fúria a mão no peito e esmagar o coração. Já que a obra ele sabia que não teria coragem de destruir.
    O vidraceiro saiu da loja como se nem fosse sua, como se ele fosse um cão vadio expulso de uma chance de se abrigar da chuva. Ele entrou no primeiro bordel que sua loucura o trouxe, se deixou levar por ela, entre pernas e suspiros,a querer se sentir vivo novamente. Ele iria se intoxicar com o veneno dos pecados, até não sobrar mais nada do homem que ele era.  Depois se mudaria da cidade, se casaria com uma prima que gostava dele desde que os dois eram crianças. Assim, mesmo não sentindo nada por ela, o amor dela, seria como antídoto para tudo que ele fez com as pessoas na miserável existência, para toda a lúxuria que ele alimentava naquela noite.  Então as garotas lhe trouxeram bebida.     Cada gole que ele sorvia, imaginava estar beijando sua musa vítrea, quando seus lábios encostavam-se ao frio copo.  Ele bebeu até o corpo se sentir dormente, até que a bebida não estivesse tão amarga quanto a sua vida de mágoas.
    O homem tomou até que sua consciência perdeu a voz. Então ele ouviu as palavras delirantes da loucura. E sua loucura tinha razão.
    Ele retornou para sua oficina entre quedas e palavrões,  os degraus desceram pelos seus pés trôpegos. Ela estava lá, quase nua, vestida apenas com os olhares que eram direcionados a ele, que nem esperou o coração acelerar para beija-la novamente.  Ter o corpo dela tão próximo e se sentir completo.  Eles chegam ao chão entre carícias de puro desejo.  A mulher olha para seu rosto com uma expressão da mais refinada dor e lágrimas de vidro rolam pelos seus olhos.  Ele não entende e tenta seca-las. Quando a palma da sua mão toca o rosto da mulher,abre um talho profundo e o sangue corre quente. Inconscientemente tenta limpar na camisa, mas a mesma está encharcada com grandes poças de sangue no tecido branco.  
    Seus olhos estão secos dessa vez e olham para o corpo abaixo. O que  era vivo para ele, agora são grossas lâminas de vidro dentro de sua carne. O corpo tomba sem forças sobre os cacos.Seus olhos são perfurados pelo impacto bruto e ele sente novamente seu corpo se tornando frio. Ele ouve um coração batendo cada vez mais distante e um sorriso se alarga no rosto dilacerado. Sua loucura veio se despedir antes do abraço da morte.

    Os lábios da mulher de cristal estavam intactos e o artista teve em seu último beijo. 

segunda-feira, 5 de agosto de 2013

Sombras de Ontem

    Ontem tive um sonho, onde as trevas do meu peito me engoliam. Foi tão real a sensação que eu resolvi fazer um conto sobre isso. 


   Me deitei sem saber se as estrelas brilhavam nas horas mortas da noite. A cama estava aquecida de lembranças mornas. Mas eu não sentia calor algum.
  Acordei por causa do ouvido infeccionado, descobri as cobertas ainda com aquela sensação de quem recém desperta. Aquele torpor de não pertencer a lugar nenhum. Os olhos embaçados pelo sono, não perceberam de imediato.
  Primeiro veio a sensação de uma angústia esmagadora, sentia o peito mais denso do que chumbo. O coração batia com uma dificuldade dolorosa, ele ecoava no quarto e fazia meus ouvidos doerem. Eu podia sentir cada pulsação como uma punhalada dentro do meu tímpano.
  Minhas mãos correram de encontro ao lado esquerdo e se afundaram. Os olhos foram de imediato para o inexplicável. Sombras dançavam. As sombras tinham um estado próprio. Elas não eram matéria, mas ao mesmo tempo eram. Uma fumaça densa e pegajosa ao sentido da visão, embora que ao tato, ela era insensível.
  Um frio, quase zero absoluto, percorreu minha espinha. Os pelos se eriçaram. Eu era puro medo. Procurei pela presença de mais alguém no quarto. Um ser em especial. Um filho de caim. A cria mais amaldiçoada do Sabá.
  Ele se vestia de sombras, seus olhos eram negros e fundos como o abismo. Cabelo de nanquim e a voz era tão profunda, que falava com a alma de quem fosse visitado por ele. Mas não eu. 
  Chamei seu nome. O silêncio me respondeu.
  A mancha negra em meu peito, se esvaiu, vertendo trevas no quarto inteiro.
  Olhei para o peito. A mancha negra foi devorando lentamente minha carne. Mas eu nada sentia. Sentia ausência de sentir tudo, a medida que minha pele ia necrosando. Eu estava paralisada pelo fim e uma voz veio do além-das-sombras.

"É inútil qualquer resistência. Você e as sombras do seu peito são uma só, sempre foram. Deixe que elas te devorem, criança. Se entregue ao seu próprio abismo"


  Não sei porque obedeci. Mas fechei os olhos. Senti as sombras como um manto, cobrindo meu corpo. Lembro de sentir as trevas acariciando meu rosto e meu cabelo. Seu toque era uma exclusão de sentidos: nem quente, nem frio, nem forte, nem delicado. Era como ser tocada por alguém que deixou de amar. Você não podia sentir e mesmo assim sentia.
  Assim eu me tornei as sombras em meu peito. Em um ponto, meu coração deixou de bater, na verdade eu já não o sentia. Não me sentia. Não sentia.
  Angústia.


quarta-feira, 17 de julho de 2013

Quando os olhos se põem  
em um céu de palavra.
Meu reino adoece 
Sem sua voz não chegada
Meu peito se propõem 
a uma longa cavalgada.
Ao som de tambores,
prevendo a batalha.
Mas um exército sem rei, nem herói,

se entrega aos seus temores.

Não conquista nada

Além da dúvida que corrói
e de lágrimas como mortalha. 


segunda-feira, 15 de julho de 2013

Aquilianos


Gente que só passa
e não se torna lembrança
e não se torna verso.

Gente que adquiri lugar e clima próprio.
Madrugada, pensamento de monção.
Que te marca com o gosto do aço.
Um beijo, um abraço.
E um dia se vão.

Mas tem aqueles que nem ficam, nem passam.
Transpassam.
Feito flecha em tendão.  

terça-feira, 9 de julho de 2013

O Novo Lar da Felicidade



    Ela sobe os oito degraus, em uma lentidão calculada. As manhãs não seriam mais ensolaradas, depois que entrasse no prédio pintado em um marrom monótono. O enfermeiro carrega as duas malas, abre a porta dupla branca e, com um sorriso beirando o cinismo, faz sinal com a cabeça para que a senhora o acompanhasse. A recepção é de uma brancura esmaltada: do piso, passando pelos móveis e terminando na luminária do teto. Mas é o sorriso da recepcionista, que se destaca por ser incomodamente... branco. Tudo naquele tom níveo e asséptico era desconfortável para a recém-chegada.
   - Então... Senhora Felicidade, faz tempo que aguardamos o seu reingresso. - Fala a recepcionista, cuspindo uma educação mal forjada. Ela era desigualmente gorda, com o tórax inchado e a cara cheia de dobras. Os braços eram maciços, terminando em mãos pequenas. Em contraste, ela tinha as pernas curtas e cheias de pequenas crateras (muito mal disfarçadas pela meia calça), os pés eram pequenos, mas muito largos.
   - Não posso dizer que é um prazer revê-la, Destempero. - Disse sinceramente. Ela não guardava rancor de voltar aquele lugar, muito menos de quem a pôs ali.- Por favor, peça logo a Descontrole para me mostrar onde vou ficar dessa vez, a viagem foi longa.
   A recepcionista contorceu o sorriso, deixando-a mais feia. Olhou para Desilusão, o enfermeiro que acompanhou a Felicidade até então:   
   - Pode acompanhar a senhora ao seu novo quarto - Ela grifou com a voz a última parte, com os olhos em uma profusão de êxtase para Felicidade. Quarto era um sinônimo muito cruel. 
   Os dois atravessaram a porta dupla que levava ao corredor principal do prédio, branca como todas as outras, mas com tela de aço para proteger o vidro. Andaram a passos rápidos, não tinha nada de nostálgico em caminhar pelo piso liso e alvo, para nenhum dos dois. Chegaram a uma sala de convivência com com grandes poltronas de estofado verde ao redor de uma tv sem sintonia e muda. Um homem magro, vestindo roupa branca e amarrotada com os cabelos pretos e alguns tufos grisalhos, assistia deitado no tapete circular a uma programação que só passava para ele. Vez ou outra, produzia algum som que lembrava uma gargalhada e a senhora percebeu quem era. Eles passaram pelo velho e Felicidade perguntou assustada para Descontrole:
  - Ele ainda está aqui? Na primeira vez que vim aqui, ele era apenas um menino e ficava fitando horas essa televisão cheia de chuviscos. E da última vez que saí, ele já era um homem em plena idade. Não há esperança para ele?
 - Não, Felicidade... - Falou Desespero com a voz trêmula e grave, parecendo sempre que tentava segurar o choro com todas as forças do grande corpo - Ele é a Infância, digo, foi a infância de alguém. A pessoa cresceu e achou um incômodo te-lo junto. Então decidiu deixar-lo nesse Asilo. A maioria das pessoa fazem isso, mas uma pequena parcela vem visitar seus parentes que deixaram aqui e uma  menor ainda, decide levar-los de novo para morar com eles. O dele, faz 20 anos que nunca mais apareceu. E eu sinceramente acho que ele vai morrer aqui. 
  Felicidade deu uma última olhada para o homem, que permaneceu de costas o tempo todo. Ela concordou com o enfermeiro em uma parte: ele nunca voltaria para casa. Pelo jeito que está alheio a todos, Infância deve pensar que está em casa. Talvez assistindo um velho desenho animado, talvez. É melhor assim para ele, Infância perderia seu sentido de existência se um dia percebesse que estava já ficando grisalho. 
   Enquanto Felicidade e Desespero cruzavam a porta aberta da sala para um pátio interno, ela começou a falar, mas para ela do que para o homem que a acompanhava. 
   - Eu acho que vou morrer aqui também. Essa vez sinto que é a última, Desespero. Eu toda vez peço que seja. Aqui não é lugar para mim. "Asilo", sempre achei esse lugar mais como um velho sótão. Abarrotado de coisas velhas que as pessoas não querem mais. Que um dia, quando for conveniente a elas ou por vergonha te ter nos abandonado aqui, se lembram que existimos. As pessoas as vezes me deprimem, desespero. Se são capazes de fazer isso conosco, que somos parte deles, imagine com as outras pessoas. O mundo fora dessas paredes brancas é todo manchado pela sujeira humana, espero que nunca saía, Desespero.- Ela recobra o fôlego e olha para o maravilhoso jardim. Com árvores de tronco escuro e galhos compridos.- Desculpe-me, eu sempre acabo tendo esse tipo de conversa com você. 
    Eles chegam a uma porta branca com a mesma grade para proteger o vidro. O enfermeiro puxa uma chave do grande molho que tinha pendurado no cinto e enfia no trinco redondo, fazendo destravar o segredo e deixando que Felicidade veja seu novo quarto. Ele tinha uma cama de ferro, um criado mudo, um guarda-roupas pequeno e uma cortina na janela com barras, todos cansativamente brancos para os dias cansativamente exaustos que ela iria passar ali, de novo. Depois que Desespero deixou as malas nos pés da cama e saiu, Felicidade viu que estava realmente sozinha, e isso a entristeceu. O pior medo da senhora era um dia ficar sozinha por completo e ela se lembrou de Infância, imaginando que se não fosse melhor enlouquecer feliz em um outro quarto de uma vida distante. 
   Os dias se passaram tão longos e incontáveis, que ela deixou de se incomodar com o tempo. Ela passava longas horas no jardim, sentada em cadeiras e mesas brancas de ferro em estilo rococó, tomando chá com Sonhos idosos. Uns já indiferentes da sua sina, que bebericavam o chá com os lábios finos e quase incolores, enquanto relembravam a época dourada de suas vidas, de amores vividos, de beijos roubados. De veteranos de guerra que eram heróis, e sobre os heróis antes deles. Felicidade ouvia com um sorriso no rosto. Mas outros eram cheios de rancores, por nunca terem conseguido realizar suas metas, de caírem em vícios, de sonharem com a morte. Pobres sonhos, pensava ela, terminarem esquecidos aqui.
   Certa vez, ela estava conversando com uma velha-sonho que um dia foi atriz, os olhos azuis, quase cegos, se enchiam de lágrimas todas as vezes que ela contava como o seu luxuoso camarim, viva perfumado por buquês de rosas vermelhas, quando a senhora, o jardim inteiro e até os pássaros, ficaram em silêncio. Desespero e mais um enfermeiro passaram pelos internos, carregando uma maca com um pano branco escondendo um volume comprido. Eles atravessaram o corredor, até além dos últimos quartos, até um muro com uma porta preta, acompanhados por todos com os olhos. Eles abriram a porta e Felicidade pôde ver vários pequenos morros cinzas, parecendo tartarugas de pedra até o horizonte. No momento em que aquela porta de madeira crua foi aberta, um vento frio entrou no asilo e levantou suavemente o lençol, mostrando onde Felicidade conseguiu ver, uns tufos de cabelos negros e grisalhos.
   Ela viu muitos passarem pela porta negra. Ela se sentia mais triste quando era um velho sonho que cruzava aquele batente. Até os que chegaram muito depois dela já se foram, a maioria não pelas portas da recepção. Ela já tinha os cabelos brancos e a pele manchada, ficava imaginando quando seria a sua vez de sair também do asilo.
  Uma tarde de um dia que as folhas da árvore começava a nascer, ela viu uma senhorinha vestida de luto, atarracada pelo tempo, entrar no jardim. o Dr.D a acompanhava e ele que quebrou o silêncio entre as duas:
  - Ela veio te levar para casa, Felicidade. Vou esperar vocês depois na minha sala para a parte burocrática, vocês sabem como é todo o processo. Venham quando quiserem, sei que tem muito o que conversar.
  Assim que o Dr.D deixou as duas, a velhinha abraçou a Felicidade o mais forte que seus braços cansados permitiam.
  - Me desculpe, me desculpe - falava entre os soluços- me desculpe te deixar aqui tanto tempo. Sei que a vida foi dura para nós, perdemos muitos que amamos. Mas agora, no fim dessa mesma vida, vim me retratar. Volte comigo Felicidade, não quero morrer longe de você.
  - Volto sim! Volto sim! nada me deixaria mais alegre.
  E Felicidade chorou.