segunda-feira, 16 de março de 2015

Sentir é muito lento




      "Sinto muito. Sentir é muito lento." - dizia a pichação no muro da esquina que já dobrei. Os olhos baços, as mãos trêmulas. Como queria um cigarro. Andei pelas ruas como se elas e a chuva não existissem. 

    Cada vez que eu levantava minha cabeça, via os sorrisos dos corações atrofiados e eu arcava a boca para que o meu coração atrofiado pudesse sentir-se parte daquela farsa toda. Quase todos os corações são natimortos, em algum ponto da pequena pausa entre os batimentos, eles morrem, mas ainda sim, continuam pulsando sem sentido. Ninguém te para na rua e pede para ver a certidão de óbito dele. Isso você deixa para aquele momento em que homens não choram, mas choram. 

    Finalmente parei no posto e comprei o maço. Opiático e vermelho. Recomeço a andar. Olhos baços, mãos menos trêmulas. Agora tenho meu cigarro. A minha direita, toda uma imensidão de lápides e adeus do cemitério municipal. As minhas costas, todas nossas poucas lembranças e adeus. Acendo um cigarro e em um pequeno êxtase,te trago comigo. O cigarro queima rápido no curto trajeto até a rodoviária. Compro minha passagem e o gosto da nicotina se faz ainda presente, quando o ônibus dá partida. Em algum canto da cidade um coração agoniza e atrofia.
     "Sinto muito. sentir é muito lento" - dizia a pichação no muro da esquina que já dobrei. E nunca mais dobraria.  

terça-feira, 3 de março de 2015

Ausência

Tua Falta é sentida de corpo presente


Desgraçada é a vida
Quando a solidão já é indiferente 


Finge-se contente
Quando a alma está mais ferida
O silêncio é o único confidente


A melancolia é dividida 
E estar só não é tão ruim
Quando tua ausência, por ela for preenchida
Estarei só enfim.

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

Sonhos do Abismo: Demos Oneiroi



      Os últimos minutos de luz solar estendem-se caprichosos no parque. As cores do inverno projetam-se nas poucas folhas desbotadas das árvores e no rosto nacarado daqueles que aproveitam o ameno fim de tarde.  Vez ou outra uma corrente fria bagunça franjas desavisadas e faz mãos procurarem bolsos. Poucas nuvens alaranjadas se espalham no céu azul-claro, característico da estação.  Em passos lentos, um homem fotografa atentamente o lugar. Como um espectro, ele caminha pelo parque roubando pequenos momentos. Um sorriso dado em resposta a um gracejo. Uma testa franzida enquanto se lê um livro. O leve bailar dos galhos com o vento. Segundos do passado que são eternizados na simples mecânica de se apertar um botão.
Os olhos atentos do fotografo são desviados para um banco próximo. Uma menina pálida de longos cabelos negros imersa em sua leitura. Ele aponta a câmera para tal cena e tira uma sequência de fotos. Seu rosto se contorce ao olhar o resultado, porque em todas a imagens o banco aparecia vazio. Ele se prepara para tirar outra foto quando percebe que ela o observava fixamente. O homem vê esse olhar como um ótimo momento para se apresentar.

- Posso me sentar? – Diz o fotógrafo com um sorriso largo ao se aproximar


        A mulher fecha o exemplar da "Divina Comédia" sem tirar os olhos perscrutadores do rapaz. Fixamente, os dois pares de olhos dançam. E ela sabia conduzir com maestria essa valsa do abismo. Os olhos negros da moça faíscam e ele percebe que sabe o nome dela, antes de perguntar, antes de ter o ímpeto de perguntar. Melinoe.
        
"Dante"- Sussurra a voz que não está mais lá. 
           
        Ele pisca os olhos freneticamente até entender a realidade. E ela não fazia sentido algum. Aquele livro deixado no banco vazio. Dante franze o cenho, confuso, quando uma voz conhecida se torna a voz de sua própria consciência e lhe ordena. O mundo não existira mais para ele, tudo o que podia sentir era a voz dela vibrando num eco perpétuo dentro de sua mente. Augusta presença, como uma deusa entre os mortais. Nem Byron poderia descrever aquela figura de pele pálida e olhos de noite. 
         Todo o caminho para casa acaba sendo uma distorção da vontade para Dante. Ele se senta rígido no banco do ônibus e nem percebe acenos de conhecidos quando desce no ponto perto de casa. Algo além da intuição, o avisa que das sombras vem a morte, mas seus sentidos estão surdos e entorpecidos. A vida toda nunca pareceu ter existido. A mente era um pêndulo repetindo o som da voz de Melinoe. Sobe as escadas num passo mecânico, quase uma marcha para seu próprio enforcamento. As luzes do corredor apagadas, fazem seus passos pesados ecoarem mais fúnebres e os vizinhos sentirem um arrepio sem saber o porquê. Ele destranca a porta num gesto mecânico e cambaleia até o sofá onde desaba. 
       Da escuridão vem um som afunilado e repetitivo. Um par de olhos amarelo fluorescente, se aproxima e escancara a pequena boca. E no caminhar maldito das horas mortas, mais gatos surgem. Quatro gatos brancos. Com o pelo em riste e sibilando em comuna com velhos pesadelos e criaturas mais antigas que o próprio medo. Mais um miado longo e conjunto. As sombras se engrandecem e apenas os glóbulos reluzem. Outro miado e as sombras se esparsam. Cheiro metálico e pastoso. O pelo antes branco dos animais, estão agora, tingidos de um sangue escuro e seco. O som de suas vozes é um crescendo de pura dor.
      Quatro da manhã e ele desperta em um espasmódico susto no escuro. Sua gata cinza-fosco, brinca com o colar étnico em seu pescoço e mia baixinho. O corpo de Dante estava em uma posição estranha no sofá desigualmente confortável para seu tamanho. Nenhuma recordação de que havia adormecido ou que havia chego em casa, a última lembrança na mente anuviada e confusa é ter estado no parque. Na penumbra fracamente iluminada pela luz da rua que vem da sacada da sala, ele pode distinguir a forma compacta em cima da mesa de vidro que ocupa boa parte do cômodo. Ligeiramente, ele anda em passos ansiosos até a mesa e liga a câmera em suas mãos tremulas. No display da máquina, aparece a mesma foto que se lembrava de ter tirado. O banco vazio.
      Enquanto ele franzia a testa e tinha certeza que havia uma mulher neste banco, ouve uivos. Não um, não dois. Mas de todos os cães da rua. E eles parecem ir se aproximando do apartamento.
      A cadela de porte pequeno da residencia uiva num som fino e anormal, fazendo Dante sobressaltar. No mesmo momento, ouve-se batidas repetitivas na porta da frente, fazendo seu estômago dar nós. Então, sem sobreaviso, elas cessão e o único barulho no apartamento deserto é o coração de Dante, dando punhaladas em seu peito. Suas pernas tremem, como se não aguentassem o peso do próprio corpo e do pavor.
      O som seguinte lhe traz uma calma apática.

-Dante! Abra a porta! É Melinoe quem ordena! - Ele caminha em solavancos bobos e deixa-a entrar, sem nem mesmo a questionar ou a si questionar de como a mulher conseguiu entrar pela porta do prédio e não fazer barulho algum ao subir o curto lance de escadas. 



      Em um movimento tão rápido quanto um raio é perceptível aos olhos humanos, ela enlaça seus lábios rubros nos trêmulos dele. A língua e o desejo avançam sem cabresto, fazendo o casal girar constantemente o rosto. Ele a envolve em um abraço pela cintura, trazendo seu corpo estranhamente frio mais perto. Com um leve movimento a comprime contra o apoio do sofá, enquanto Melinoe  trança os largos quadris de Dante com suas coxas, fazendo assim, desnuada-las do longo vestido preto.
      As mãos de Dante logo percorrem a carne alva e rija como o granito. Melinoe solta um arfar do fundo da garganta, quase um urro, quando a ponta dos dedos se aproximam do meio das coxas. Ela agarra o pescoço de Dante com uma das mãos, enquanto a outra apoia-se no móvel. Passa a língua libidinosa na jugular do rapaz com uma calma calculada, desacelerando a cena. A artéria pulsa e a Besta protesta, fazendo os olhos de Melinoe arder de sede.


-Hmmmm... seu cheiro... - fala enquanto o olha fixa e profundamente, com o sorriso em carranca. Dante tem aquela sensação estranha novamente, como a presa tem, milissegundos antes de ser abatida.
       

       A gata cinzenta,  senta-se imóvel no umbral do pequeno corredor. Os olhos amarelos do animal observam cada passo da luxuriosa cena, seus ouvidos captam cada modulação de insânia que escapa daquelas bocas. O bicho se aproxima do sofá e a cada passo, transformações sutis moldam o seu esqueleto. Primeiro o tom do pelo muda para um preto lustroso, o globo ocular vai se tornando mais humano. Numa erupção de sombras o corpo felino agiganta, contorcendo-se em ângulos obtusos. A criatura se torna bípede em estalos secos e ecos. As sombras do cômodo dançam em volta do corpo esquálido e níveo, formando um manto vivo e cobrindo a criatura que nunca foi humana, mesmo tendo existido como uma.

                Melinoe sorri no meio de um dos infinitos beijos, fazendo Dante reduzir o movimento pélvico e olhar nos olhos obsidianos da mulher. Ele pergunta algo frequente, esperando uma resposta comum, de uma trepada casual:


- Tá bom, né? - A frase curta, falada num tom morno e rouco, desperta uma risada histérica em Melinoe. Dante franze a testa de ébano polida pelo suor.

- Ri por quê?- Um arrepio percorre o corpo de Dante, quando a mulher traz a boca ao ouvido dele.

- Porque vai morrer. 



      Em um átimo, o manto da criatura que os observava se refaz em mil tentáculos de sombra. Eles deslizam pelo chão, quase líquidos, até encontrar a carne de Dante. Antes que ele pudesse inflar os pulões em um grito de horror, os tentáculos negros entram pelas suas narinas, frios úmidos, como o o toque da morte.
      Dante abre os olhos no vazio do abismo. E sente o nada. Vozes afuniladas e distantes, entoam um ritual em uma língua velha e estranha. O tempo era o mesmo de quando se sonha antes de despertar, infinitamente impreciso. O abismo agora sussurrava seu nome. Quando se tem um pesadelo mergulhado no éter e no érebo, o tempo se torna imprecisamente infinito. 
     
       
   

segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

Visita

Bem vinda é você
Na casa da solidão.
Que entra sem bater
Ela, com os sentimentos de segunda mão
Vem te receber.

Bem vindas somos
Na casa da solidão.
Há sempre um quarto vago,
afago, compreensão

Coração
Rejeita companhia
Qualquer outra é vazia
Para ela. Para nós.
Bem vinda seja a solidão
Quando não estamos sós.

quinta-feira, 2 de outubro de 2014

Campo Santo


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    Um relvado extenso se ergue na luz do dia que se finda. Algumas cabeças de boi ruminam e espanam os insetos com o rabo. O leve sereno já se acumula no capim de um verde vivo, mas parece não incomodar os animais. Nem o pequeno grupo que caminha agachado na parte onde o campo se engrossa, carregando a paisagem de um jeito selvagem. 

- Shhhiu, faz menos barulho João da Cruz, queres que o bando do Moringue nos pegue. Aquieta esse passo, piá!

- É complicado, Netinho. Tu sabe que se a gente se embrenha nesse mato estamos salvos desses caramurus!


    Os outros oito homens, de pele escura e empunhando lanças, tentam silenciar até o pensamento. A campanha foi a mesma cachina da anterior, terminando de destroçar o grupo. Mesmo feridos e com a fome revirando nas tripas, eles sabiam que o que os movia a continuar era algo além da vontade de viver. Era o desejo de liberdade.
    O ar frio da mata fechada sopra esperançoso no rosto de joão da Cruz. Um suspiro de alívio é inspirado por todos. E permanece estocado no peito.


- Te pegamos, seus negrinhos de bosta! - É o som que a maioria ouve por último, vindo da mata.


    Soldados fardando um azul escuro e funesto, com suas botas quase novas e botões dourados, bradam um urro de morte e de vida. Corações dentro de peitos negros ou transpassados por faixas brancas na transversal, batem e param de bater do mesmo jeito. Perante o delírio do confronto, os dois lados são homens e feras.Tiros. Espadas puxadas de suas bainhas. Lanças que sentem o gosto férreo do sangue. Silêncio.
    O breu da noite já predominava de um jeito sepulcral no descampado. Os animais são tocados por peões e ambos parecem não se importar com o sereno gélido. Menos indiferente era o grupo que caminhava agachado em um canto do pasto. A serração não condensava naquele ponto, como se ali, matéria não existisse. Os lanceiros negros mantinham o mesmo passo, sem nem um tremor sequer. Os mortos não sentem frio.

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quarta-feira, 1 de outubro de 2014

Poemeto de Retratação

Eu queria me desculpar, em nome da minha alegria
Ela é indomável e egoísta
Hora quer ser melancolia
Hora quer ser saudosista
Eu queria me desculpar, em nome da minha alegria
pelo seu jeito displicente 
em relação ao amigos
aos meus livros 
ao meu sono.
Eu queria me desculpar, em nome da minha alegria
não sou regente
desse sentimento que atente um só dono
A musa sorri, pelo medo que temia
Não por não sentir, mas por sair da letargia.

domingo, 3 de agosto de 2014

Pretensão




Risada que escondi
Arfar que não respirei

 Dor amarga que bebi
Escaparam de refluxo pelo quarto
E o corpo, já farto do não-sentir
Sente
Duplamente
Como é quente o carmesim
Vou repetir isso em mim
Vou repetir isso em mim


sexta-feira, 1 de agosto de 2014

Canto de um Pulsar



     Algumas madrugadas atrás, descortinei a janela sobre a minha cama. Meus olhos, quase cegos, não reconheceram muita coisa além do borralho iluminado que era a Lua e a copa das árvores,que pouco nítidas, projetavam um espectro agourento no céu noturno. Não me importei em colocar os óculos porque minha vontade, inspirada em poetas parnasianos, era ouvir estrelas e não vê-las.Os olhos castanhos-turvos fixaram-se em um ponto aleatório do céu. Cotovelo se apoiava no umbral da janela, cabeça na palma da mão e a mente se apoiava em lugar nenhum, vagando tão longe que faria inveja na Voyager. O universo era tão tangencialmente finito quanto a minha mente naquele momento. 
    Meus pensamentos orbitavam Castor e Polux quando um ruído vítreo trouxe-me de volta. Um pássaro escuro e lustroso feito piche e olhos de lusco-fusco, investia em batidas regulares contra a minha janela.
     Caí de costas no chão e a queda só não foi mais dolorosa que o medo, trespassando feito lança o estômago. A ave continuava a forçar entrada e a cada nova batida, nova também era a explicação que eu dava a mim mesma.

"Mais um pesadelo vívido, aguente que logo a hiperventilação e tua arritmia vão te despertar." -Dizia a voz da minha consciência em um tom pouco convincente, enquanto eu fechava e abria os olhos com força.

"Paralisia do sono. Vai ser uma péssima e intensa lembrança." - Gaguejava meu subconsciente o primeiro distúrbio do sono, quando o vidro da janela trincou. 

"Sombras do Abismo! Criatura das Horas Mortas!" - Berra qualquer parte primitiva da minha mente enquanto a parte racional treme em silêncio, quando a besta alada salta do buraco no vidro para o quarto escuro. 


     Na penumbra os olhos da ave cintilavam na minha direção,dois globos fosforescentes me examinavam enquanto eu arfava e minhas pernas espasmavam descontroladamente. Em pequenos saltos, ela atravessou a cama e parou com as patas secas em cima das minhas coxas trêmulas. O bico em formato de foice quase encostando no meu queixo. Tentava controlar a expiração das narinas dilatadas pelo pavor quando o pássaro abriu suas longas asas em um arco.
  Então a ave cantou. Primeiro o som foi de um chiado baixo, como um rádio captando só estática. Tive mais medo. O ruído foi ficando constante e metálico. O pássaro cantava a sinfonia de estrelas pós-colapso.
  Fiquei alguns segundos com a boca semi-aberta depois que o seu canto cessou. Inebriada. O animal saltitou ligueiro até a cama e me encarou. Feixes pálidos e frios de luz, forçavam a penumbra e o meu medo do desconhecido a deixar o cômodo. As cores do amanhecer deram uma outra ótica a ave que balançava a cabeça rapidamente entre os meus lençóis.  
   Sua plumagem era de um azul profundo, tão profundo como os mares do norte. A cauda se descoloria numa cascata de tons marinhos, até chegar a um tom níveo de branco e de beleza das Camélias. Os olhos eram pequenos brilhantes que piscavam translúcidos. A ave era tão magnífica, que Narciso deixaria seu reflexo para poder morrer olhando para ela. Era um Pássaro-Contemplador-de-Estrelas.
   Minha vontade foi de cortar a ponta das assas do pássaro, mas seria um pecado transformar tal criatura num mero bibelô. Eu recostei no travesseiro, observando o voo baixo e despreocupado que o Pássaro-Contemplador-de-Estrelas dava no quarto. Talvez ele percebeu meu olhar triste e atencioso, porque veio se aninhar no meu peito e ali ficou. Piou baixinho quando eu acariciei as penas, pedindo para que não fosse embora tão cedo. E ali ficou.
   Trovejou três dias consecutivos e por três dias consecutivos o Pássaro-Contemplador-de-Estrelas deixou que eu ouvisse com todo carinho seu Canto-de-Pulsar. Na madrugada do terceiro dia, o céu se encheu de estrelas. A ave olhava pelo buraco que tinha feito no vidro e uma brisa mansa tremeu suas penas. Então me olhou e seu canto era um lamento.

"Vai! Abre tuas asas sob o Cosmos! - Falei em um tom moroso enquanto minha mão apontava involuntariamente para a janela - A chuva e minha tristeza de monção não são mais suas gaiolas.

   Ele hesitou um segundo e meio, que pareceram uma eternidade e meia. Cantou uma última vez naquela frequência sidérea. Saiu. Observei o voo cadente se distanciando até se fundir com o infinito celeste.
      Sempre aguço meus ouvidos quando uma ave canta. Cotovia, Bem-te-Vi, Coruja. Juro que até o Rouxinol eu já ouvi. Mas o eco de um canto de um pulsar, o som do Pássaro-Contemplador-de-Estrelas, só posso ouvir quando a memória lembra do brilho de Nebulosas distantes.   






sábado, 5 de julho de 2014

domingo, 29 de junho de 2014

Nódoa



Eu sou tua chaga aberta
Latejando em tua derme
Sou a praga abjeta

Do âmago da dor, o verme.

Lhe devoro a carcaça
Lentamente
Da sanidade te afasta
Lentamente.

O meu beijo, é o beijo da lepra.
O meu amor, é o arauto da desgraça.
Mas é somente a dor que estará presente

Enquanto eu, tua doença, te consome e se alastra.