segunda-feira, 11 de novembro de 2013


Quando seus espelhos do orgulho se erguem
A sua tristeza é só espelhada.
Como espera que os outros te enxerguem,
Se não é a imagem da tristeza velada?
Me diga como consegue maquiar um sorriso,
Se seus olhos estão embaçados ?
E nesse espelho não se vê, mas enxergar-se o nada,
O reflexo é conciso
E a tristeza ainda está lá, inteira, quando enxergada
Você que vira cacos, espalhados

                                              
                                           al
                                                   
                                                  
                                                       que 
                               


                                         bra
                                                                  do








quarta-feira, 6 de novembro de 2013

O Vazio tem seu nome, Mariana.

Esse conto foi idealizado com a ajuda de Hibernal Dream, um futuro Ghost Writer. Ele me deu um tempo da sua madrugada para trocarmos nossos textos e de um dele surgiu essa ideia. Nosso conto, com orgulho. Aproveitem.




      O desespero vem rápido como um tiro. A morte sobe os degraus, fazendo a escada ranger dolorosamente. A madrugada mal começou e eu estou quase no fim do maço de cigarros. Dou uma longa tragada e posso sentir o alcatrão fazendo seu caminho até meus pulmões cansados. O gosto queima na garganta e permanece forte na língua. Expiro o veneno, carbono e lembranças. As lembranças são as notas mais fortes dessa essência de desaconchego.  A fumaça dança em espirais na penumbra, iluminada pela fresta da janela formando vários retângulos de luz no piso da cozinha.
Incrível  como posso me recordar dela na primeira manhã, depois da primeira noite. Descabelada e rouca, andando na ponta dos diminutos pezinhos até a cozinha. Linda. É como se a casa tivesse memória celular e se lembrasse de cada toque nas paredes, de cada roupa jogada pelo chão, cada vez que ela suspirou dentro dos cômodos, cada lágrima pelos cantos e guardasse como o último rosto a ser lembrado antes da demolição. Infelizmente só a casa lembra, porque não consigo lembrar do rosto dela. Posso ver claramente o sorriso, o olhar de soslaio, mas se tento concentrar no rosto completo, por mais que eu me esforce, a mente falha. Eu daria meu passado inteiro, pela só pela lembrança do rosto dela naquela manhã primeva. Desde o momento que as pupilas se contraíram por causa da luz, até o sorriso que ela me deu, músculo por músculo daquela face corada pelo sono por mim acompanhado. Esse seria o momento que eu gostaria de ver antes de morrer. Porque esse foi o limiar dos meus sonhos mais belos e a ruína da minha seca alma. Quando eu me lembro do rosto de Mariana, é tudo breu infindável, é quando eu estou sozinho em meus pensamentos.
Termino o maço, lembrando que dizia que o cabelo dela tinha cheiro de orvalho. Que idiotice! As bactérias que evaporam do chão tem esse cheiro, não a água. Mas mesmo assim eu me sentia Drummond falando isso aos sussurros para a minha musa. Depois quando ela pediu “um tempo”, eu vivia repetindo e vivia para repetir o “Não se mate. Carlos,sossegue,o amor é isso que você está vendo:hoje beija, amanhã não beija,”, sendo eu um outro Carlos ferido, esse poema virou oração. De tempo em tempo, veio à separação e um novo amor. Para Mariana.
     Arrasto-me até o amontoado de cobertas onde ficava nossa cama. Eu queimei-a no último acesso de frustração. “Ela me esqueceu”-repetia bêbado- enquanto o metal retorcia e estalava. No fim, sobrou só o refugo de um homem, de uma cama e de um amor que não vingou. O sono vem logo, junto com os mesmos pensamentos que me visitam há meses.  Na primeira vez que encostei a pistola na língua, tive a impressão de que o ferro tinha gosto de sangue. Isso me fez suar frio e abandonar a arma na terceira gaveta do criado mudo. A ideia também foi trancada em algum cofre da mente, junto com os devaneios de aparecer pelado na escola e meu primeiro sonho molhado. É vergonhoso lembrar-se disso, você se sente vulnerável demais e tenta nunca mais se sentir assim. Mas as vezes esses cofres são arrombados pela confiança em outros. Um anônimo que tenha os seus sonhos, um amigo que tenha seu corpo, um amor que tenha sua vontade, seus sonhos e seu corpo. Mariana...
     A noite se desfaz como veio: Estúpida e fria. Me sinto um mendigo, sujo e bêbado, enrolado em uns trapos que foram cobertas um dia. Acho que talvez eu seja, um mendigo esquizofrênico que se imagina em um apartamento velho e quase sem mobília, chutado por uma mulher. Droga, seu eu realmente fosse estaria sibilando isso com o cabideiro e não em um solilóquio. A boca seca, os olhos tortos... ressaca. Talvez seja a hora de uma carta. Me levanto com o quarto rodopiando, vou até meu casaco roto e dentro dele pego uma lápis pela metade, roído e uma caderneta. Me escoro e sinto a parede deslizar pelas costas até chegar no frio chão. Olho para a janela com cortinas improvisadas de lençol. O sol já vem, Carlos. Perco uns minutos olhando para a esparsa luz que invade a fresta e o ar sujo do quarto. A pele dela ficava tão linda tocada pela luz de um dia que deixou de existir. As cores tinham tons de sonho, desfocadas e caleidoscópicas. Minha mão treme um pouco, tirando-me do devaneio. O papel está pronto.

" Mariana, maldita seja quando seu sorriso se perdeu em meus olhos, eu... "

    Paro de escrever, ela não merece nem essas torpes linhas. Vou partir como vivi nesse mundo: sozinho. Sei onde está a arma. O gosto de sangue não está mais no cano. É férreo sim. Do jeito que seu beijo costumava ser... Mariana... 
         O desespero vem rápido como um tiro. A morte sobe os degraus, fazendo a escada ranger dolorosamente. Mas eu lembrei de trancar a porta?

               


                

quarta-feira, 23 de outubro de 2013

Como se dá bom-dia para quem ainda não dormiu?

   Fique a vontade, não te culpo pelo meu sono ruim, pelo meu sonho ruim, ou a falta deles. Culpe as borboletas inválidas no meu estômago, as estrelas que morreram sem cortejo. Culpe o pianista surdo que não ouviu suas últimas palmas, o peito que se afoga em vazio.

   A madrugada vem e passa, deixando ora dormência, ora arrepio. Eu sempre achei que o orvalho eram lágrimas que a noite escondia por orgulho, talvez hoje ela chore por ti. 

   Bom dia, a quem teve sono leve e acordou alarmado e então, deixou-se afundar em algum abismo. Saiba que um sonho morreu para eu lhe dar bom dia, um seu. Talvez eu deixe de adormecer, para que os sonhos vivam e outra coisa padeça com minhas olheiras. Eternamente ouvindo boa noite e madrugando, partilhando sonhos de boêmios. Não parece tão ruim ficar sem o seu bom dia.

Dor de estômago pós boca da noite



Exaurindo-se nas dores do corpo e nas além dele.
Falta de sono é dormência.
Acreditar que não, é peso-morto.
peso-morto da não-existência.

sábado, 19 de outubro de 2013

Bilhete de jogo de cama.

Quando estamos só eu e você, eu sinto menos minha. Menos minha tristeza. Menos minha decepção. Menos minha incapacidade. Eu me sinto "impertencente" de qualquer coisa que não esteja na distância dos seus olhos nesses momentos. 

Quando estamos só você e eu, dormir em paz é eternidade. 

Tercetos para um Insone

E é assim, sem boa noite que eu me despeço. Teu silêncio é um acoite espontâneo. Teu amor é objeto, falta é sucedâneo. Sem boa noite, a noite não será. Meu silêncio é um acoite, que navalha a mente insone. Os sonhos que ninguém sonhará, a sombra da fresta que colecione.

O meu, eu deixei pra ti embrulhado em desculpa.
Todo silêncio é um açoite, que eu sinto sem ti.
Sentimento que usurpa, a noite que não dormi.

quarta-feira, 16 de outubro de 2013

Constelação de memórias



Costas da mão estão paraplégicas.
E as cordas vocais desfiaram.
Tetos celestes desabaram

Fios de cabelo entre os dedos,tecem lembrança.
Órion nos seus olhos
E se a poeira de estrelas eu fosse alérgica?

Anos luz de distância
Brilho de galáxias que uma noite chegaram
Pedidos ao céu da boca

São feitos e perdidos.
Constelação de memórias, eis a nossa história.




terça-feira, 10 de setembro de 2013


Todos os erros se acumulam em uma cova rasa, 
escavada com a própria mão. 
Crime perfeito, mas culpa te escarra.
Todos somos cúmplices da solidão. 

Visita é sempre a falta

Uma vida é nada. Passa só.
Ossos velhos doem sem tempo.
Uma (in)decisão, em corda vira nó.

O nada vira pó. 




segunda-feira, 9 de setembro de 2013

A Mulher de Cristal

    Da forma do artista, saiu a massa plástica viscosa. Disforme pelo calor do forno. Ele aprecia o trabalho, enquanto o material se enrijece.
    O vidraceiro demorou uma vida toda para aperfeiçoar o molde, a quantidade perfeita de sílica,sódio, cálcio e decepção depois que a obras finais saíram com defeitos. Ele tinha os traços do rosto fundos, por se sentir  incompleto na vida e completamente infeliz. Nenhuma mulher viva o encantava, pele quente jamais fez  amar alguém, mesmo buscando isso desesperadamente. Mas no fim eram só palavras e expectativas para elas e dois corpos falhos para ele . Ele não tinha laços com os vizinhos e amigos, seu coração era mais frio e imóvel que as taças expostas na vitrine da pequena loja.
    A mulher saiu do molde, a pele fria era de vidro tão cristalino, que parecia ser de gelo puríssimo. Óxido de ferro na mistura inicial, deixaram os cabelos dela quase bronze e o cobalto, fizeram seus olhos tristes e azuis. Seu corpo sem vida , faria com qualquer mulher quisesse parar o coração e ter aquela perfeição por uns segundos . E homens passariam todos os anos restantes da vida deles, abandonado mulher e filhos, só pelo prazer da contemplação infinita. Mas o artista, ele só queria que aquela escultura de cristal pudesse retribuir o que ele sentia.  Ele se aproximou de sua obra, envolveu-a com seus braços e calor. Por um momento ele achou que era a pele dele que era fria , que era o coração dele que não batia. Que tudo vinha da mulher de cristal. Então, em sua delirante paixão, ele roubou um beijo dos lábios imóveis enquanto que a esperança lhe roubava uns minutos.
    Quando os lábios se separaram, ele olhou com os olhos turvos pelas primeiras lágrimas de sua vida. Pelo breve momento que os olhos não transbordaram e o líquido se acumulou, ele viu o corpo da mulher iluminado por uma miríade de cores, como se ela fosse um vitral gregoriano tocado pelo sol.  Mas assim que as lágrimas se tornaram torrenciais, formando gotas grossas no fim rosto,  tudo desapareceu. E uma dor excruciante fez o seu coração se contorcer dentro do peito, rasgando-lhe as entranhas.  A vontade dele era enfiar com toda fúria a mão no peito e esmagar o coração. Já que a obra ele sabia que não teria coragem de destruir.
    O vidraceiro saiu da loja como se nem fosse sua, como se ele fosse um cão vadio expulso de uma chance de se abrigar da chuva. Ele entrou no primeiro bordel que sua loucura o trouxe, se deixou levar por ela, entre pernas e suspiros,a querer se sentir vivo novamente. Ele iria se intoxicar com o veneno dos pecados, até não sobrar mais nada do homem que ele era.  Depois se mudaria da cidade, se casaria com uma prima que gostava dele desde que os dois eram crianças. Assim, mesmo não sentindo nada por ela, o amor dela, seria como antídoto para tudo que ele fez com as pessoas na miserável existência, para toda a lúxuria que ele alimentava naquela noite.  Então as garotas lhe trouxeram bebida.     Cada gole que ele sorvia, imaginava estar beijando sua musa vítrea, quando seus lábios encostavam-se ao frio copo.  Ele bebeu até o corpo se sentir dormente, até que a bebida não estivesse tão amarga quanto a sua vida de mágoas.
    O homem tomou até que sua consciência perdeu a voz. Então ele ouviu as palavras delirantes da loucura. E sua loucura tinha razão.
    Ele retornou para sua oficina entre quedas e palavrões,  os degraus desceram pelos seus pés trôpegos. Ela estava lá, quase nua, vestida apenas com os olhares que eram direcionados a ele, que nem esperou o coração acelerar para beija-la novamente.  Ter o corpo dela tão próximo e se sentir completo.  Eles chegam ao chão entre carícias de puro desejo.  A mulher olha para seu rosto com uma expressão da mais refinada dor e lágrimas de vidro rolam pelos seus olhos.  Ele não entende e tenta seca-las. Quando a palma da sua mão toca o rosto da mulher,abre um talho profundo e o sangue corre quente. Inconscientemente tenta limpar na camisa, mas a mesma está encharcada com grandes poças de sangue no tecido branco.  
    Seus olhos estão secos dessa vez e olham para o corpo abaixo. O que  era vivo para ele, agora são grossas lâminas de vidro dentro de sua carne. O corpo tomba sem forças sobre os cacos.Seus olhos são perfurados pelo impacto bruto e ele sente novamente seu corpo se tornando frio. Ele ouve um coração batendo cada vez mais distante e um sorriso se alarga no rosto dilacerado. Sua loucura veio se despedir antes do abraço da morte.

    Os lábios da mulher de cristal estavam intactos e o artista teve em seu último beijo. 

segunda-feira, 5 de agosto de 2013

Sombras de Ontem

    Ontem tive um sonho, onde as trevas do meu peito me engoliam. Foi tão real a sensação que eu resolvi fazer um conto sobre isso. 


   Me deitei sem saber se as estrelas brilhavam nas horas mortas da noite. A cama estava aquecida de lembranças mornas. Mas eu não sentia calor algum.
  Acordei por causa do ouvido infeccionado, descobri as cobertas ainda com aquela sensação de quem recém desperta. Aquele torpor de não pertencer a lugar nenhum. Os olhos embaçados pelo sono, não perceberam de imediato.
  Primeiro veio a sensação de uma angústia esmagadora, sentia o peito mais denso do que chumbo. O coração batia com uma dificuldade dolorosa, ele ecoava no quarto e fazia meus ouvidos doerem. Eu podia sentir cada pulsação como uma punhalada dentro do meu tímpano.
  Minhas mãos correram de encontro ao lado esquerdo e se afundaram. Os olhos foram de imediato para o inexplicável. Sombras dançavam. As sombras tinham um estado próprio. Elas não eram matéria, mas ao mesmo tempo eram. Uma fumaça densa e pegajosa ao sentido da visão, embora que ao tato, ela era insensível.
  Um frio, quase zero absoluto, percorreu minha espinha. Os pelos se eriçaram. Eu era puro medo. Procurei pela presença de mais alguém no quarto. Um ser em especial. Um filho de caim. A cria mais amaldiçoada do Sabá.
  Ele se vestia de sombras, seus olhos eram negros e fundos como o abismo. Cabelo de nanquim e a voz era tão profunda, que falava com a alma de quem fosse visitado por ele. Mas não eu. 
  Chamei seu nome. O silêncio me respondeu.
  A mancha negra em meu peito, se esvaiu, vertendo trevas no quarto inteiro.
  Olhei para o peito. A mancha negra foi devorando lentamente minha carne. Mas eu nada sentia. Sentia ausência de sentir tudo, a medida que minha pele ia necrosando. Eu estava paralisada pelo fim e uma voz veio do além-das-sombras.

"É inútil qualquer resistência. Você e as sombras do seu peito são uma só, sempre foram. Deixe que elas te devorem, criança. Se entregue ao seu próprio abismo"


  Não sei porque obedeci. Mas fechei os olhos. Senti as sombras como um manto, cobrindo meu corpo. Lembro de sentir as trevas acariciando meu rosto e meu cabelo. Seu toque era uma exclusão de sentidos: nem quente, nem frio, nem forte, nem delicado. Era como ser tocada por alguém que deixou de amar. Você não podia sentir e mesmo assim sentia.
  Assim eu me tornei as sombras em meu peito. Em um ponto, meu coração deixou de bater, na verdade eu já não o sentia. Não me sentia. Não sentia.
  Angústia.